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Pode o evangelho da esposa de Jesus ser falso?

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Em 18 de setembro de 2012, Karen King, o Professora de Harvard Divinity School, no 10º Congresso Internacional de estudos copta, apresentou aos seus colegas um pequeno fragmento de papiro copta em que Jesus menciona sua "esposa". O texto é agora referido como o Evangelho da esposa de Jesus. 
Antes de sua apresentação, Karen King tinha o papiro cóptico analisado por estudiosos de copta, Roger Bagnall e AnneMarie Luijendijk, cujas credenciais académicas e reputações estão acima de qualquer suspeita. Assim sendo, não tinha razão para assumir que o pedaço de papiro fosse fraudulento. 
O fragmento é de aproximadamente 1.5 x 3 polegada. A inscrição contém oito linhas de copta, algo confusas, e estava programado ser publicado na prestigiada Harvard Theological Review (HTR) em 2012. No entanto, devido às questões em torno da autenticidade do fragmento, o artigo suspenso até mais testes e responderem a diversas questões. A muitas dessas questões o professor da Universidade de Brown de egiptologia e Assiriologia, Leo Depuydt, alegou "It shtinks!" momentos depois de ver uma foto do fragmento do Evangelho da Esposa de Jesus. A HTR finalmente publicou uma cópia revisada de Karen King, incluindo um artigo de Leo Depuydt alegando que o Evangelho da Esposa de Jesus é uma farsa. 

Fonte: http://www.biblicalarchaeology.org/daily/biblical-topics/new-testament/is-the-gospel-of-jesus-wife-a-fake/

O Presépio de Natal

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Autor: Tony Burke
Tradução: Bruno Ervedosa

O presépio (presépio) é uma embarcação centenária
 e uma das mais conhecidas tradições do Nápoles.
 Esse Napolitano presépio foi exibido em Roma.
 Foto: Howard Hudson / Wikimedia Commons.
Uma das imagens mais conhecidas da época de Natal é o presépio — a representação bem conhecida do nascimento de Jesus — exibido em uma matriz de configurações públicas e privadas, incluindo igrejas, parques, vitrinas de lojas e em envoltórios da chaminé. A primeira cena montada por São Francisco de Assis em 1223, é iconográfica, significando os seus vários elementos destinarem-se, principalmente, a retratar verdades teológicas — não histórica, nem sequer literária. Ele harmoniza duas histórias muito distintas: nascimento de Lucas de Jesus em um estábulo, visitado por pastores e a presença de um anfitrião angelical e magos de Mateus, que são conduzidos por uma estrela para a família da casa de Jesus em algum momento antes do segundo aniversário de Jesus
A maioria das pessoas vendo a cena da Natividade, retrata o nascimento de Jesus como aconteceu, com animais de fazenda, pastores, anjos e magos apinhados num estábulo de Belém. Mas a combinação é apócrifa, em sentido amplo, uma vez que a cena completa não é um reflexo preciso do que os textos bíblicos dizem sobre o nascimento de Jesus e no sentido restrito que essa harmonização de Mateus e Lucas é uma característica comum dos Evangelhos da infância cristã não-canônico. Na verdade, estes evangelhos não apenas combinam as histórias bíblicas, eles aprimoram-nas, com tradições adicionais sobre o nascimento de Jesus que circularam na antiguidade. Claro que a maioria dos cristãos ao longo da história foram desconhecem esta distinção; antes de alfabetização generalizada, os cristãos contam a história do nascimento de Jesus, sem consciência de quais elementos foram baseados na escritura e quais não eram.
Cristãos apócrifos são ricos com histórias do nascimento de Jesus. A primeira e a mais conhecida destes são as histórias encontradas no Protevangelium (ou "Proto-Evangelho") de Tiago. Composta no final do segundo século, este texto combina as narrativas da infância de Mateus e Lucas com outras tradições, incluindo histórias do nascimento da Virgem Maria e educação. O Protevangelium foi excecionalmente popular — centenas de manuscritos do texto existem hoje em uma variedade de línguas, e influenciou profundamente liturgia cristã e ensinamentos sobre Mary. O Protevangelium foi transmitido no Ocidente como parte do Pseudo Evangelho de Mateus, que acrescentou-lhe contos de permanência da Sagrada família no Egito e, em alguns manuscritos, histórias da infância de Jesus extraído do Evangelho de Thomas de infância. Outros manuscritos de Pseudo-Mateus incorporados uma narração diferente do nascimento de Jesus de uma outra forma perdido Evangelho que estudiosos chamam o livro sobre o nascimento do Salvador. No Oriente, o Protevangelium foi traduzida para o siríaco e expandiu-se com um conjunto diferente de histórias passadas no Egito para formar a vida da bem-aventurada Virgem Maria, que mais tarde foi traduzido para o árabe como o Evangelho de infância árabe. Outro siríaco reformulação do Protevangelium por trás do Evangelho armênio de infância. Os cristãos do Oriente também expandiram as tradições de magos de Mateus, criando a revelação dos Magos, a Lenda de Aphroditianuse. Na estrela (erroneamente atribuído a Eusébio de Cesareia), cada qual à sua maneira narra como os Magos tornaram-se cientes de que a estrela anunciava o nascimento de um rei.
Esta pequena pintura tripartida, o presépio com os profetas Isaías e Ezequiel, 
é parte de um enorme retábulo conhecido como a Maestà.  
Composto de muitas pinturas individuais, a Maestà foi encomendado
 pela cidade italiana de Siena em
 1308 do artista Duccio di Buoninsegna. Ele contém elementos 
do nascimento de Jesus de Christian Apocrypha, 
incluindo a caverna, o boi, a bunda e a parteira.
 Foto: cortesia National Gallery of Art, Washington.
Se leitores desses textos apócrifos podem ver os presépios modernos, eles estariam surpresos ao encontrar o menino Jesus em um estábulo: nos Evangelhos da infância, o nascimento ocorre em uma caverna nos arredores de Belém, no mesmo local também dado por Justin Martyr (em seu diálogo com Trifão 78), que morreu cerca de 165 C.E. Eles também podem ter esperado ver uma parteira na cena; na verdade, ela aparece regularmente nas representações da Igreja Ortodoxa da Natividade, ajudando Maria a banhar o recém-nascido. Como diz o Protevangelium , José deixou Maria na caverna e entrou em Belém para encontrar uma parteira. Mas, como José e a parteira aproximando-se da caverna, eles viram uma nuvem brilhante, ofuscando-os. A nuvem desapareceu dentro da caverna e uma grande luz apareceu, que retirou-se e revelou o menino Jesus. Cada uma das expansões mais tarde do Protevangelium narrar esta cena em sua própria maneira, mas todos eles se esforçam para mostrar que Jesus não nasceu em uma maneira natural, permitindo assim a Maria permanecer fisicamente virgem após o nascimento. O Evangelho armênio de infância, por exemplo, relata que os Magos viram-no de forma diferente: como o filho de Deus em um trono, como o filho do homem, cercado pelos exércitos e como um homem torturado, morto e ressuscitado.
Os apócrifos de acordo com Lucas, os pastores visitaram a Sagrada família logo após o nascimento de Jesus. Nos textos ocidentais, a família então move-se da caverna para um estábulo e coloca o bebê na manjedoura. Lá um boi e um burro dobram os seus joelhos e adoram-No, cumprindo a profecia de Isaías 1:3, "o boi conhece proprietário e o jumento berço do seu mestre" (veja Pseudo-Mateus 14 e o nascimento do Salvador 86). Embora um enfeite apócrifo, os animais tornaram-se um ingrediente comum em representações subsequentes da Natividade e podem ser observáveis em presépios hoje.
Mais frequentemente, a caverna continua a ser palco de eventos subsequentes, incluindo a circuncisão (de Lucas 2:21) e a visita dos Magos. Os Magos são geralmente retratados na arte e iconografia como três reis persas ricamente adornados. No entanto, Mateus chama "Magos do Oriente" (Mateus 2:1) e não diz quantos eram. Os escritores dos textos apócrifos fizeram o seu melhor para esclarecer estas questões. A revelação dos Magos, há pelo menos doze reis magos — o mesmo número é dado em outras tradições de siríaco — e eles vieram a Belém em abril (não de dezembro) de uma terra no Extremo Oriente chamado "Shir," Talvez devesse ser entendida como a China. Evangelho armênio de infância diz que eram três reis, e eles foram acompanhados por 12 comandantes, cada um com um exército de mil homens, o que faria para um estábulo muito lotado de fato. Muitos dos textos continuam a história dos Reis Magos e contar o que aconteceu quando eles voltaram para seu país de origem: na vida da Virgem (Evangelho de infância árabe) trazem de volta uma das bandas (panos que envolviam o bebé) de Jesus, que eles adoram porque tem propriedades milagrosas; na revelação dos Magos, eles compartilham a comida indutora de visão (uma espécie de cogumelos mágicos?) dada a eles pela estrela; e na Lenda de Aphroditianus eles retornam com uma pintura de Jesus e a sua mãe. Nenhuma dessas tradições apócrifas de Magos são destaque em presépios hoje, mas alguns deles influenciaram a literatura e a arte medieval.
Cristãos de todos os tempos e lugares têm encantado na história do nascimento de Jesus, tanto que eles já ansiavam para aprender mais sobre o primeiro Natal do que é encontrado nas histórias bíblicas. O presépio de Natal é o resultado dos esforços de escritores criativos e piedosos para preencher lacunas deixadas por Mateus e Lucas e combinar várias tradições, bíblicas e não-bíblicas, em uma imagem duradoura. O presépio é uma representação atemporal de quando Deus se tornou homem; é também uma prova de imaginação humana e a arte de contar histórias.

Unicórnios na Bíblia?

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Por Bruno Guerra
bruno.guerra@sapo.pt

Há uns tempos atrás, numa pergunta não dirigida a mim, uma jovem levantou a questão se os unicórnios era animais mitológicos ou se foi uma espécie que se extinguiu.
De fato, existem algumas versões da Bíblia em que encontramos referências aos unicórnios. Mas, em outras, encontramos referências aos bois selvagens. A pergunta que se coloca é que animais sãos estes: serão os famosos cavalos com um chifre na testa, tal como conhecemos da mitologia e contos de fadas? Ou serão uma espécie extinta de bois?
Posso adiantar que nem uma coisa nem outro, apesar de ser uma espécie de animal em vias de extinções. O nome que era dado antigamente não é o mesmo que pelo qual é conhecido hoje!
Vejamos as características que a Bíblia apresenta desse animal:
• Números 23.22: é um animal forte
 • Números 24.8: possui grande força
 • Deuteronómio 33.17: diz que tem chifre e não apenas um
 • Jó 39.9-9: não é um animal doméstico
 • Salmo 22.21: é um animal perigoso
• Salmo 29:6: as crias são irrequietas
 • Salmo 92.10: é poderoso
• Isaías 34.7: distingue-se do touro
Com estas passagens conseguimos algumas informações sobre este animal. O que significa que ele não é um produto da mitologia e que existe. A mitologia é que se utilizou para dar o nome a um cavalo com um chifre.
A História é uma ciência que investiga fontes documentais para relatar a verdade sobre a civilização. Este estudo mostra que existe uma evolução linguista através dos tempos e que muitas palavras passam a ter significados diferentes dos em tempos diferentes.
 É o caso do unicórnio. Esta palavra surge com os grego-romanos, no período Clássico, e pronunciava-se como unos-cornos. Esta palavra não significa que o animal é de um único corno, mas, de corno unido.
Não havia fotografia, ou filmagens, na altura, porém, existiam desenhistas que retratavam pessoas animais ou locais, e que através desses desenhos podemos ter acesso visual de como as coisas naquele tempo se assemelhavam.
Hoje, eu posso mostrar uma foto do animal que naquele tempo era conhecido como unos-cornos:
Sim, o rinoceronte! Ele tem todas as caraterísticas descritas na Bíblia sobre este anima.
A palavra unicórnio surge na Bíblia devido à sua tradução em latim. Inclusive, nos dias de hoje, para a identificação de espécies no mundo científico, ainda são usados nomes em latim para que o cientista japonês ou português consigam perceber que animal se referem. E sabem como identificam o rinoceronte indiano? Rhinocerus unicornis!
Portanto, quando ler na Bíblia unicórnio ou boi selvagem, saberá que se trata de uma espécie de rinoceronte.

Onde viveu Jesus dos 12 aos 30 anos?

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Por Bruno Guerra
bruno.guerra@sapo.pt

Uma das incógnitas que paira sobre a vida de Jesus era o que seria feito de Jesus durante o período de 18 anos em que a Bíblia não menciona nada sobre Ele. Esse período de 18 anos vãos dos 12 até aos 30 anos.
Existem várias teorias que, a meu ver, são possíveis de aceitar, mas, sem nenhum tipo de fonte que possa provar essas possibilidades, que seria de Jesus viver na Palestina ou em outro lugar do Extremo Oriente. Outra teoria, mais rebuscada, seria de Jesus ter deixado o planeta Terra e ter viajado para outros planetas. Porém, estas são teorias humanas.
Apesar de não se encontrar nenhum tipo de referência na Bíblia direta a esse período de vida, podemos encontrar outro tipo de referências que nos ajudam a compreender onde Jesus habitou durante esse tempo. Uma das primeiras referências que podemos encontrar é em Lucas 4.16:
“Chegando a Nazaré, onde fora criado; entrou na sinagoga no dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler.” 
Neste versículo podemos ver que eles estavam a vir para Nazaré. Mas, não comprova que ele ficou em Nazaré. Então, vejamos versículos anteriores, em Lucas 2.51:
 “Então, descendo com eles, foi para Nazaré, e era-lhes sujeito.” 
Este versículo já dá uma ideia clara de que Jesus esteve em Nazaré durante 18 anos, pois o tempo verbal foi, verbo ir em Grego Antigo erchomai (ἔρχομαι), é também compreendido utilizado como verbo crescer. Assim, fica claro que o fato de aparecer “foi” deve-se ao tradutor ter utilizado o verbo ir, ao invés do verbo crescer. Não é um erro de tradução, pois ambas estão corretas.
No entanto, podemos levantar a questão: mas, se o tradutor achou que foi ir era melhor que cresceu, não compromete a teoria de que Jesus viveu em Nazaré durante aquele tempo? Não a compromete, mas, reconheço que não se torna suficiente para credibilizá-la. Vamos então procurar mais pistas na Bíblia que nos possam ajudar a reforçar essa ideia.
Ora, vejamos o versículo 9 do capítulo 1 do Evangelho Segundo Marcos:
“E aconteceu naqueles dias que veio Jesus de Nazaré da Galileia, e foi batizado por João no Jordão.”
Este versículo já se refere à idade de 30 anos de Jesus. Também refere que Jesus veio da Nazaré, da Galileia. Jesus de Nazaré não era o nome Dele. Jesus era o nome e Nazaré onde ele cresceu, pelo que ficou conhecido por Jesus de Nazaré. Para quem não sabe, Jesus era um nome muito comum entre as pessoas naquela altura, então era necessário acrescentar algo ao nome que o identifica-se. Depois vemos em Mateus 4.12-13:
“Ora, ouvindo Jesus que João fora entregue, retirou-se para a Galiléia; e, deixando Nazaré, foi habitar em Cafarnaum, cidade marítima, nos confins de Zabulom e Naftali.” 
Aqui, no momento em que João é entregue, ou seja, é preso, Jesus deixa Nazaré para habitar em Cafarnaum. Bem, se Ele vai habitar em Cafarnaum e deixa Nazaré, significa que era lá que Ele vivia. Então, isso comprova o fato de Jesus ser conhecido como Nazareno, por habitar todos estes anos em Nazaré (ver Mateus 2:23; 26:71; Marcos 1:24; 10:47; 16:6; Lucas 4:34; 18:37; 24:39; João 1:45; 18:5, 7; 19:19; Atos 2:22; 3:6; 4:10; 6:14; 22:8; 26:9).
Também impulsionou o que em Atos 24.5 Lucas refere como “seita dos Nazarenos”, que identificava os seguidores do Evangelho de Cristo. Há mais versículos que mostram a compreender que Jesus cresceu em Nazaré:
“E, chegando à sua terra, ensinava o povo na sinagoga, de modo que este se maravilhava e dizia: Donde lhe vem esta sabedoria, e estes poderes milagrosos?” Mateus 13.54 
“Saiu Jesus dali, e foi para a sua terra, e os seus discípulos o seguiam.” Marcos 6.1 
Quando alguém especifica que vai para a sua terra em Portugal, significa que está a referir-se ao lugar onde cresceu e viveu durante largos anos. Aplicando o mesmo sentido aos versículos, Jesus estaria a referir-se a Nazaré. Uma coisa muito comum quando alguém é de determinada terra, é conhecida lá por algum motivo, normalmente. Também Jesus era conhecido em Nazaré e a sua família:
“Não é este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E não estão aqui entre nós suas irmãs? E escandalizavam-se dele.” Marcos 6.3 
“Não é este o filho do carpinteiro? E não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José, Simão, e Judas?” Mateus 13.55 
Será que o iriam conhecer se não fosse daquela terra, Nazaré? O fato de não ter sido registado a sua vida durante esse período, deve-se à sua importância. Que significado traria ao Seu Ministério se tivesse feito uma cadeira ou mesa de madeira? Nenhum, pois os seus ensinamentos é tudo o que precisa para encontrar o perdão do Pai e o Caminho da Salvação.
Porém, não nos podemos limitar a entender que Jesus teria vivido apenas em Nazaré. Também podemos observar que a sua profissão era de carpinteiro, tal como o seu pai terrestre, José. Para além disso, vemos que temos referências à família de Jesus: mãe, pai, irmãos e irmãs; o que faz cair por terra o dogma da Virgem Maria, pois, se ela teve mais filhos, significa que teve relações sexuais com José.
Assim, deixou de ser virgem na noite de núpcias e morreu como uma mulher que foi esposa e gerou filhos. Estes pequenos versículos, não são para questionar a vida de Jesus durante este tempo, mas, para confirmar as profecias bíblicas do Antigo Testamento que anunciam a chegar de um Salvador de todos aqueles que Nele crerem vindo de Nazaré.
Além do mais, trata-se de evangelhos e não de biografias. Leia o que escreveu João no seu evangelho:
“Jesus, na verdade, operou na presença de seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão escritos neste livro; estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” João 20.30-31

A Última Ceia de Jesus

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Por Bruno Guerra
bruno.guerra@sapo.pt

Introdução
Jacopo-Bassano-Jacopo-da-Ponte-The-Last-SupperMuitos cristãos participam de um culto nas suas igrejas, o qual chamam de ceia do Senhor, Memorial, ou Eucaristia. Porém, são poucos os que conhecem as suas origens da forma como se celebrar o culto-ritual. Para a maioria dos cristãos, a Última Ceia de Jesus foi um Seder1, uma refeição ritualística comemorativa do feriado judaico da Páscoa. De fato, segundo o Evangelho de Marcos2 - e subscrito pelos evangelhos de Mateus e Lucas - a última ceia coincide no primeiro dia dos pães ázimos, quando imolavam o cordeiro pascal e o assavam para ser comido pela família durante a noite. Observando este versículo, só podemos assumir que era realmente uma refeição pascal. Assim sendo, será que comeram o cordeiro pascal, realizando o Seder? Mas será que esta está mesmo associada à festa pascal judaica? Apenas os três evangelhos sinóticos apresentam a última ceia no início das celebrações pascais, sendo que o Evangelho de João dá-nos a indicação de que a ceia realiza-se antes da festa da Páscoa3. Segundo alguns historiadores bíblicos, não se trata de um erro bíblico dos evangelhos, mas, o resultado da forma como celebra a Páscoa nos dias de hoje. Irei procurar explicar isso nos próximos parágrafos.
 A Páscoa Judaica
O feriado da Páscoa judaica comemora a libertação de do Egito. As raízes do festival podem ser encontradas em Êxodo 12, onde o Senhor instrui os hebreus a sacrificar um cordeiro no décimo quarto dia de Nisan, antes que o sol se ponha4, para que as celebrações se iniciem no décimo quinto dia. A refeição consiste no cordeiro com pães ázimos e ervas amargas. O sangue do cordeiro é esfregado nas ombreiras das portas, como sinal, no qual Deus veria e não passaria na naquela casa para matar o primogénito. É uma festa anual que têm a duração de dez dias, sendo o marco de início de um novo ano no calendário judaico. O cordeiro deveria ser consumido naquela noite, por uma ou mais família, em as sobras seriam queimadas. Esse sacrifício mudou com o estabelecimento da nação em Israel e a construção do templo. A Páscoa torna-se numa festa de peregrinação, pois os israelitas deslocam-se a Jerusalém para sacrificar o cordeiro no dia catorze e comê-lo durante na noite do dia quinze5. Os registos rabínicos mostram que ouve uma evolução na cerimónia, de forma a que o ritualizaram de uma forma muito religiosa.  
Última Ceia
Podemos encontrar alguns desses elementos da ceia pascal, incluídos na última ceia. E da mesma forma como é atribuído significados aos elementos da Seder, Jesus também atribui simbolismos aos elementos da ceia. Joachim Jeremias6 estabelece alguns paralelismos que leva a entender a Última Ceia como um Seder, segundo a tradição no tempo de Jesus: a Última Ceia ocorreu em Jerusalém, num lugar preparado para o efeito, realizado durante a noite, Jesus celebra com a “família” de discípulos, é uma refeição realizada em pureza espiritual, é feito o partir do pão, foi consumido vinho, o vinho era vermelho, havia preparativos de última hora e cantou-se um hino, ficaram em Jerusalém, foi apresentado o significado simbólico. Para além desde pontos de Joachim Jeremias e das indicações dos evangelhos, a importância dada pelos cristãos, segundo a sua crença, leva-os a interligar historicamente a Última Ceia e o Seder. No entanto, o ceticismo histórico interpõe-se quanto à fiabilidade histórica dos Evangelhos. Onde foi sacrificado o cordeiro, uma vez que estes não revelam o sacrifício do animal no Templo, nem se o comeram? Também se levanta a questão do porquê dos judeus estarem a julgar e a condenar Jesus durante o feriado mais importante da sua crença. O que leva a acreditar que o Evangelho de João faz a abordagem correta à questão, mas, entra em conflito com o Evangelho de Marcos, que é um testemunho. Os Evangelhos de Lucas e Mateus, são cópias do que Marcos escreveu que foram completadas por outras fontes. Já o Evangelho de João é uma memória, pois, acredita-se que tenha sido escrito perto do ano setenta. Qual dos dois estará correto?  
Qual dos dois está certo?
De acordo com João, Jesus é morto antes do cordeiro para a festa e antes do pôr do sol que daria início à festa. “Antes da festa da páscoa, sabendo Jesus que a sua hora de passar deste mundo para o Pai já tinha chegado, como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até ao fim”. João 13.1 “Era o dia da preparação da páscoa, e quase a hora sexta” João 19.14 “Como era o dia da preparação, os judeus, para que os corpos não ficassem na cruz durante o sábado, porque esse sábado era um grande dia, rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas, e fossem tirados” João 19.31 A questão pode ser entendida de acordo com João. Se a fé cristã afirma que Jesus é o Cordeiro Pascal que é morto pelos pecados, que sentido faria Jesus celebrar o Seder, quando Ele viria a se tornar a sacrifício? Mas, assim, levanta-se uma outra questão: será que João não pretenderia dar apenas um significado teológico? Vejamos o que revelam os sinóticos: “No primeiro dia da festa dos pães asmos, os discípulos se aproximaram de Jesus e lhes perguntaram: Onde queres que façamos os preparativos para comeres a páscoa? ” Mateus 26.17 “Ora, no primeiro dia dos pães ázimos, quando imolavam a páscoa, disseram-lhe seus discípulos: Aonde queres que vamos fazer os preparativos para comeres a páscoa? ” Marcos 14.12 “Ora, chegou o dia dos pães ázimos, em que se devia imolar a páscoa” Lucas 22.7 Reparem numa coisa: estariam as autoridades judaicas a contrariar a Lei? Será que teriam perdido alguma informação histórica para o seu evangelho? Também podemos ver que os elementos que compunham a refeição eram comuns a qualquer refeição. Se era o Seder, fica a faltar as ervas amargas, os quatro copos de vinhos e o cordeiro assado. A meu ver, torna-se plausível o Evangelho Segundo João, apesar das questões que este levanta. O que revela que a refeição de Jesus e os seus discípulos não foi um Seder. Com isto Joachim Jeremias está errado quando afirma que a última ceia foi o Sedar. Afinal de contas, o que ele descreve assemelha-se com muitas outras refeições judaicas. “
Última” Ceia? Ou primeira de muitas?
 Talvez devêssemos observar o comportamento dos primeiros cristãos e dos apóstolos. O que fizeram eles depois que o Senhor subiu aos céus? “E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E cada dia acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo salvos. ” Atos 2.46-47 Aqui podemos observar que eles partiam o pão, em casa, fora de um contexto pascal. O que significa que a última ceia não tem rigorosamente nada que interligue historicamente com o Sedar. Na realidade, não faz sentido nenhum chamar de Última Ceia, o que viria a ser a primeira de muitas. Existe um antigo manual da igreja cristã, o Didache, que sugere a última ceia como uma refeição judaica comum, algo descrito no capítulo 9 e 10 como Birkat há-Mazon. Também após a morte de Jesus, as comunidades cristãs levantaram a questão de quando deveriam celebrar a Páscoa. Com isto gerou-se o que é conhecido como controvérsia Quatrodecimana. Os Quatrodecimans eram cristãos que defendiam a celebração da Páscoa cristão com a Páscoa judaica, independentemente de ser um domingo ou não7. E assim foi desde o século V d.C., em que a Páscoa passou a ser celebrar a um domingo. Com isto, dá-se a divergência entre os primeiros cristãos, em que a explicação mais credível que a História nos dá se deve ao encorajamento da celebração da Páscoa, segundo datas que faziam sentido para a Fé de cada comunidade. Alguns estudiosos do Novo Testamento afirmam que Lucas procura incentivar os cristãos a não celebrar a Páscoa baseando-se em Lucas capítulo 22, do versículo 15 ao 18. No entanto, outros acham que está associado a um período de jejum, segundo as tradições judaicas, que antecede a Páscoa. Há alguns que avançam com uma nova teoria, em que os cristãos judaicos associam a última ceia ao seder, de forma a limitar a prática aos judeus, em Jerusalém e na Páscoa. Estas teorias mostram que até aos dias de hoje, o debate sobre a Páscoa no seio cristão ainda gera controvérsia.  
A Explicação mais Lógica - Conclusão
Como historiador e cristão, acredito que nenhum dos evangelhos estão errados, no que toca a assuntos de doutrina, porque Paulo, escreveu o seguinte: “Expurgai o fermento velho, para que sejais massa nova, assim como sois sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, já foi sacrificado. Pelo que celebremos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade. ” 1 Coríntios 5.7-8 Para aqueles que se convertiam ao cristianismo, já não fazia sentido que se celebrasse a Páscoa segundo as tradições antigas. Primeiro, como mostram os sinóticos, Jesus não celebrou a Páscoa, e João mostra Jesus a ser o Cordeiro de Deus pelos pecados; e segundo, conforme a fé cristã, se Jesus se torna o último e derradeiro sacrifício pelos pecados, não é preciso sacrificar mais como ditam as tradições antigas da Páscoa. Isto significa que os quatro evangelhos, não pretendem relatar a forma como as coisas se passaram, mas, o que significaram e a sua repercussão para a vida de todos os cristãos. À medida que o cristianismo ganha força, também se reforça a ideia do sacrifício de Jesus correlacionado com a Páscoa de Êxodo. Já historiograficamente, os quatro evangelhos levantam dúvidas. Não se pode afirmar que é João que está historicamente correto, ou os sinóticos. É uma questão que recai exclusivamente do ponto de vista teológico e da fé pessoal de cada cristão, tal como já referi a minha. Há que salientar que apesar da Bíblia nos oferecer pistas sobre a História, não nos dá o panorama da História da Civilização completo, nem da História do Cristianismo. É preciso investigar. O próprio João escreveu no final do seu evangelho que muito haveria para contar, mas, apenas escreveu algumas coisas para que fossem apenas relativos a matéria de fé8. Será que isto torna a Bíblia um livro para não se levar em conta? De maneira nenhuma! Pelo contrário, torna-a mais apetecível para podermos chegar à Verdade e compreender a Civilização. Então, porque nas igrejas modernas se come o pão e se bebe o vinho, à semelhança da Última Ceia? As igrejas, desde os seus primórdios até aos dias de hoje, celebram ocasionalmente, ou sempre que se reúnem os fiéis, o comer do pão e o beber do vinho, por causa do que Jesus disse, citado no evangelho de Lucas, e mais tarde, relembrado por Paulo: “E tomando pão, e havendo dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. ” Lucas 22.19 “Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou pão; e, havendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo que é por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes do cálice estareis anunciando a morte do Senhor, até que ele venha. De modo que qualquer que comer do pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. “ 1 Coríntios 11.23-27 Com base nestes versículos, milhares de cristãos pelo mundo, celebram este ritual, conhecido como memorial, santa ceia, ou eucaristia, consoante a declaração de fé de cada igreja. Isto quer dizer que este tipo de culto-ritual, não está associado à Páscoa, nem ao Seder, mas, a uma forma de cultuar o Salvador e o seu sacrifício, relembrando esse momento e enfatizando a simbologia que o pão e o vinho têm para este marco na História Cristã.

1 O Seder (ou ordem) é a refeição cerimonial judaica que se realiza na primeira noite das comemorações da Páscoa Judaica, que recorda a libertação da escravidão egípcia.
2 Marcos 14.12
3 João 13.1
4 Segundo a tradição judaica o novo dia começa quando o sol se põe.
5 Esta prática pode ser observada em 2 Crónicas no capítulo 30 e 35 no reinado de Ezequias e Josias.  6 O livro apareceu pela primeira vez em 1935 e foi revisado e traduzido várias vezes depois disso. Os 14 paralelos estão listados em 1960, terceira edição, que foi traduzido para o Inglês em 1966.
7 Há que ter em conta que o calendário judeu foi e é lunar, o que significa que a noite após o de Nisan calha em Lua Cheia, seja um sábado ou não.
8 João 20.30-31